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A CONTINUIDADE COLONIAL

Se se olhar para o país e para os países ocidentais, antigos impérios coloniais e actuais potências neocoloniais, salta à vista que os filhos e os netos de quem construiu o império europeu são os que trabalham hoje no sector da construcção, são, de forma significativa, os que trabalham nos cuidados de saúde dos lares de idosos, nas limpezas de diversos sectores de atividades e serviços, ao mesmo tempo que são, em termos de relação com a sua presença no território, os que vivem em maior número em zonas periféricas do país, zonas com menor acesso a transportes, serviços e cultura, assim como são os que vivem não só em habitações sobrelotadas como as mais precárias. 

São eles portanto, os trabalhadores de base que têm as condições de trabalho mais precárias, isto é, os que trabalham em contextos de maior insegurança, não só em termos da sua integridade física, mental e emocional, como em termos económicos - são os que têm menos vínculos laborais formalizados, que são mais facilmente despedidos, que passam mais tempo desempregados e os que têm menor acesso a protecção no desemprego -, como são também os mais mal pagos - os seus ordenados por hora/dia de trabalho são mais baixos.

Isto significa que são os que têm menos possibilidade de obter boa alimentação, menos poder de custear os cuidados de saúde, habitação e educação, e garantir tais direitos aos seus descendentes. E por consequência, dado a proliferação precária das duras condições de trabalho nas outras dimensões da sua vida, os que têm menor poder reivindicativo, face à dificuldade sistematizada (organizada) que os impede de condições para construírem formas e instrumentos de luta para se defenderem e ganhar independência, a começar pelo trabalho. 

A origem de tudo isto está, podemos dizer, “[n`]a máquina de produção montada pelos impérios coloniais no século XIX [que] continua a alimentar as necessidades de mão-de-obra da economia atual: tal como os seus antepassados construíram os impérios europeus, os seus filhos e netos constroem hoje os prédios, as autoestradas e as fábricas nos países para onde emigraram, mantêm-nos a funcionar, limpam-nos, tratam da sua manutenção; em suma, são o operariado atual”, constatam as investigadoras Ana Vaz Milheiro e Ana Rita Fernandes, no âmbito do Estudo Paisagens Coloniais e Pós-Coloniais: Arquitetura, Cidades e Trabalho.

As políticas de Migração e de trabalho actuais, que vão sendo desenhadas nos territórios dos países europeus, então potências e impérios coloniais, a somar às políticas neocoloniais de extração de bens nos territórios então colonizados, a que a linguagem política burguesa actual chama de cooperação, mantém o ideal e o legado desse passado, já que continuam a usurpação por duas vias: desenha caminhos para absorção e exploração de mão-de-obra migrante para a continuidade da construção das infraestruturas e serviços coloniais na metrópole e na possessão directa de bens além-fronteiras.

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Carlos Rafael Teixeira