Fala-se muitas vezes da incorporação das mulheres no mundo do trabalho. A incorporação é a ação de incorporar ou incorporar-se, incluir-se, integrar-se, aderir-se. Unir-se a algo do qual, até ao momento imediatamente anterior, se estava separado. Curiosa escolha de palavra, dado que as mulheres – seja lá o que isso tenha significado ao longo do tempo – sempre trabalharam. Pelo menos desde que, nas sociedades pré-industriais imediatamente anteriores ao início do capitalismo, se começou a conceptualizar o termo trabalho como algo diferente das diversas formas de atividade e subsistência que tinham estruturado as sociedades anteriores — e que, em qualquer caso, as mulheres também tinham desenvolvido. Como é que alguém se incorpora em algo de que já faz parte?
Entre os séculos XVI e XVIII, as mulheres contribuíam a cada dia com o seu trabalho para o funcionamento das suas sociedades. Os discursos oficiais dessa época, emitidos a partir dos poderes religiosos ou morais, criaram arquétipos do que deveria ser uma mulher, baseados, ainda que com algumas nuances, na ideia de que deviam manter-se dentro do lar, ser obedientes, submissas e orientar os seus objetivos de vida para a reprodução e para o cuidado do lar e da família.
No entanto, esses discursos não refletiam a realidade das mulheres mas tentavam antes moldá-la. Pretendiam ser uma influencia para que se adequassem a essas ideias, o qual não significa que o tenham conseguido. Na verdade, os próprios moralistas e teólogos queixaram-se frequentemente de que o que sucedia era precisamente o contrário do que pretendiam. Por exemplo, o escritor Pedro Galindo, autor dum desses escritos intitulado Verdades morales e publicado em 1678, dizia que “nunca esteve o mundo pior do que na era presente”, nunca estiveram “as mulheres mais livres, as donzelas mais desavergonhadas”.
Apesar disso, a ideia que prevaleceu foi a de que as mulheres estavam realmente confinadas ao lar e dedicadas ao cuidado da casa e da descendência. Nada mais longe da realidade, dado que elas, muito frequentemente, desempenhavam atividades laborais afastadas disso. Nas cidades europeias, as principais ocupações que desempenharam foram o serviço doméstico, o comércio a retalho e a produção manufatureira. Muitas trabalhavam nas hortas, nas lojas, vendiam comida nas ruas, teciam roupa, tinham tipografias, vendiam livros, eram parteiras, geriam tabernas e estalagens, vendiam materiais de construção como tijolos ou madeira e trabalhavam dentro de oficinas artísticas de pintura, tapeçaria ou ourivesaria. Também trabalhavam nos campos.
As mulheres constituíam a mesma percentagem da população e estavam no mundo tal como estamos agora, formando aproximadamente metade da população mundial e estando presentes em todos e cada um dos aspetos da vida. Isso ficou plasmado na obra Día y noche en Madrid de Pedro de Zabaleta, publicada a meio do século XVII, na qual a personagem principal vai narrando um dia qualquer nessa cidade e, entre outras coisas, encontra numerosas mulheres a desempenhar as suas ocupações. Ao acordar, espreita pela janela e vê uma mulher que trabalha como criada a tirar água de um poço. Depois, ouve chegar uma vendedora de tortilhas de leite, chamada pelo vizinho de cima. A caminho da missa, encontra duas mulheres que descreve como “duas ciganinhas jovens, que já conhece”, e outras mulheres: uma grávida, uma viúva e uma lavradora. Inclusivamente ao entrar na igreja e, mais tarde, ao reunir-se no cemitério com conhecidos, dirige-se a todas as mulheres que passam. A todas elas incomoda com comentários de teor assediador.
Mesmo tendo em conta de que se trata de uma obra literária e que foi escrita com um objetivo moralista, abre-nos uma janela, como muitos outros escritos da época, para uma realidade muito diferente daquela que nos foi contada, na qual as mulheres, longe dos papéis de género que se pretendiam impor a partir das esferas de poder, ocuparam as ruas e as praças, as casas e os locais de trabalho, tal como todas as outras pessoas.