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BEBAMOS NA RUA, OCUPEMOS A CIDADE

Entrou em vigor no município de Lisboa, no passado dia 16 de fevereiro, a proibição de venda de álcool para a rua a partir das 23h (ou meia-noite às sextas, sábados e vésperas de feriado). Agora, depois destas horas, já não é permitido comprar uma cerveja numa loja de conveniência ou num bar para ir beber na rua, é preciso beber no estabelecimento ou levar a bebida de casa – beber na rua em si continua permitido, pelo menos por agora, ao contrário das cidades espanholas, em que é proibido. Isto numa cidade cada vez mais privatizada e cara, em que os espaços populares de convívio, as tascas, as associações e clubes recreativos estão a desaparecer ou a ser estrangulados pelo aumento dos preços e forçados a abandonar o centro da cidade. É um guião já conhecido: expulsam-se os moradores dos bairros populares, vêm os ricos à baila da fama boémia e de vida noturna que os bairros ganham e agora já não lhes convém ter gente a beber e a mijar na rua. Sobre o mijar na rua, diga-se, a solução era só haver muito mais casas-de-banho públicas e as que existem funcionarem durante a noite. Onde não houvesse era só colocar umas portáteis - é que para outras coisas não falta dinheiro.

Para a gente com dinheiro que manda na cidade, e a vende às imobiliárias e aos endinheirados com vistos gold, ter gente a beber na rua só serve quando é para promover a ideia de cidade cosmopolita e vibrante. Se já está tudo vendido, dá mau aspeto, é coisa de pobre. Sim, de facto, quem trabalha aqui e ganha um salário mínimo, ou mesmo médio, não consegue certamente frequentar qualquer bar, desses pseudo-chiques-genéricos-azeiteiros, com cervejas a 4 euros e cocktails a 8. Nem muitos dos jovens que vêm dos subúrbios à sexta e sábado à noite, e que têm de esperar pelas 5 da manhã para apanhar o primeiro comboio ou barco de volta para casa. Nem grande parte dos estudantes que já se vêem à rasca para pagar um quarto e as propinas. Quem bebe na rua é muitas vezes quem não tem dinheiro para os bares mas, além disso, quem simplesmente não tem condições para estar sempre em casa (quem vive num quarto alugado, quem vive em casas sobrelotadas sem privacidade, etc) vai sempre ocupar mais a rua, bebendo ou não. Esta proibição é uma questão de classe. Irá servir como desculpa para mais violência policial e mais repressão contra os mesmos de sempre – ou alguém acha que os betos a beber à porta dum bar vão ter o mesmo tratamento que os jovens negros ou os asiáticos que vendem cerveja na rua? É esse, aliás, o espírito da "lei mordaça", no reino espanhol, que proíbe beber na rua - a mesma lei que serve para reprimir manifestações e autoriza a polícia a fazer o que lhe apetecer.

Não se trata só dos interesses dos donos dos bares, ou dos vizinhos ricos e chatos. É uma disputa sobre a própria cidade, sobre o próprio espaço público. Não querem que bebamos na rua, não querem que andemos por aí a vadiar, não querem que incomodemos a cidade cartão-postal. Querem privatizar o espaço público. Querem que tudo seja à base do consumo. Comprar uma litrosa na mercearia e ir beber na rua? Coisa de vagabundo. Sentar numa esplanada e beber cerveja ao triplo do preço? Já é a «vibrant nightlife™» que merece ser promovida em revistas de turismo. Um facto curioso: na rua Augusta, há mais de 1200 cadeiras de esplanada, mas nenhum banco público.

A rua é para ser vivida. É um local de encontro, onde se cruzam pessoas de realidades, origens e classes sociais diferentes. E, como é dos poucos lugares onde dá para se estar sem pagar, ainda é nossa – e isso incomoda. Querem-nos fechados em casa, ou bem-comportados dentro dos estabelecimentos comerciais. Continuemos a beber e a andar na rua, mesmo que para isso tenhamos de comprar a bebida mais cedo. Ocupemos o espaço que nos querem tirar!

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Rodrigo Z.