Um dos argumentos usados contra quem critica a existência do Estado de Israel baseia-se no antissemitismo, ou seja, criticar Israel seria equivalente a criticar toda a comunidade judaica. É verdade que existem milhões de judeus críticos do Estado de Israel, o que poderia desmontar o argumento inicial. Mas antes, temos que recuperar os fundamentos do anti-semitismo, pelo menos alguns deles.
Há mais de mil anos que as comunidades judaicas sofrem ataques organizados por toda a Europa, os chamados pogroms, pela aversão entranhada que existe aos judeus. Em épocas de instabilidade é sempre mais fácil acusar comunidades minoritárias dos males do mundo. Os judeus foram perseguidos nos reinos cristãos e muçulmanos da península ibérica e expulsos de Inglaterra no século 13; foram o principal alvo, com os muçulmanos, da Inquisição, a partir do século 15; nos séculos seguintes, inúmeras perseguições ocorreram na Europa central e de leste; no século 20, foram o bode expiatório do nazismo e até da União Soviética a partir de 1936. E ainda hoje é possível assistir a críticas moralistas do "sistema" financeiro, que ignoram a estrutura do capitalismo e rapidamente se transformam em ódio aos judeus, como se, na sua maioria, fossem todos ricos.
A Inquisição ibérica é, no entanto, um dos casos mais relevantes, uma estrutura com leis, tribunais e propaganda para perseguir judeus e muçulmanos, obrigados à conversão ou à expulsão. Com os recém-convertidos normalizou-se a desconfiança, mantendo-se a Inquisição de pé durante séculos. O objectivo era uma limpeza étnica. A península ibérica, no resto da Europa, era vista como menos pura, dada a mistura entre várias populações e religiões. O conceito de "limpeza de sangue", introduzido em Toledo, em 1449, impedia cristãos com antepassados judeus ou muçulmanos de ocupar cargos públicos e é um exemplo do início do uso de supostas características biológicas usadas como armas ideológicas para categorizar os diferentes seres humanos.
Não é coincidência, então, que a Inquisição tenha sido um dos pilares da colonização da América, liderada precisamente pelas sociedades ibéricas e que assentava na evangelização, controlo cultural, repressão, castigo e morte. Foi, no entanto, ao contrário da Inquisição, uma ocupação de terras alheias à força, com uma racionalização da violência exercida sobre milhões de pessoas nunca antes vista. A categorização dos vários seres humanos atingiu outros níveis, graças à tortura, à escravatura, ao trabalho forçado, à propaganda das ordens religiosas: as sociedades coloniais eram rigorosamente disciplinadas. Milhões de pessoas foram obrigadas a mudar a sua visão do mundo e o seu modo de vida, torturadas e escravizadas para que se pusesse em marcha um novo sistema económico. Foi o início do racismo moderno e do capitalismo. Como pode o povo judeu esquecer-se de que a sua própria opressão durante a Inquisição foi uma das bases ideológicas que fundamentou o suposto dever cristão de colonizar e escravizar os povos invadidos?
Este é um dos pontos-chave para entender a crítica a Israel, um projecto colonial desde o início. Aquelas terras já estavam ocupadas e isto é tão verdade que os grupos israelitas que invadem a Palestina são chamados de "colonos". Não é coincidência. Walter Benjamin, um teólogo judeu, já tinha avisado que o sionismo, a base para a construção do Estado de Israel, era uma ideologia racista. Israel é um Estado bully e terrorista que, com a ajuda militar dos EUA, ataca qualquer país vizinho, com consequências catastróficas, como agora com o Irão. As nossas sociedades, se querem mesmo combater o anti-semitismo, devem celebrar a diferença, acolhendo qualquer judeu que queira abandonar Israel mas também qualquer outra pessoa que aqui queira viver, reconhecer o erro histórico da Inquisição e do colonialismo e rejeitar a existência do Estado de Israel. Porque "(s)e alguém disser: «Eu amo a Deus», mas odiar a seu irmão, é mentiroso pois quem não ama a seu irmão, ao qual vê, como pode amar a Deus, que não vê?" (I João 4:20)