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O HORIZONTE DE EVENTOS (segunda parte)

III

“No entanto, as investigações mais recentes afirmaram que na realidade essa barreira, tão impenetrável, por vezes deixa escapar algumas informações. Estamos a falar de dados de tipo quântico que, segundo o famoso teórico Stephen Hawking, são emitidos nas proximidades do horizonte de eventos. Esse processo tão misterioso, que supõe uma fuga de partículas de algo que sempre foi considerado um monstro aspirador, recebeu o nome de Radiação de Hawking.”

Paula abriu os olhos de repente, sentindo-se como naquela vez em que um pesadelo terrível perturbara o seu sono tranquilo. Demorou alguns segundos a aperceber-se de que estava bem. A sua leitura tinha sido interrompida por uma tontura repentina. Olhou à sua volta. Olhou para as suas pernas, acomodadas no banco de sempre, o seu sítio preferido. Nada podia correr mal enquanto estivesse ali. Olhou para as suas mãos, que pareciam tremer um pouco. De repente, lembrou-se de algo muito importante. Levantou o olhar e teve uma incrível sensação alívio. Elena estava ali, no recreio, a brincar feliz com outras crianças.

A mãe levantou-se com um grande sorriso e começou a caminhar na sua direção. Os seus pensamentos projetaram-se no futuro. Muitas vezes imaginava vê-la crescer. Deliciava-se com a ideia das tantas coisas que poderia fazer com a filha, de todo o tempo que ainda teriam pela frente. Com esses pensamentos a guiarem-lhe os passos, Paula chegou à vedação do parque infantil. Abriu o pequeno portão e entrou. Elena reparou nela imediatamente e devolveu-lhe o sorriso. Correu até ela. Viu a mãe a agachar-se e abrir os braços. Evitou, por um triz, chocar com um menino que ia a andar de baloiço. Faltavam poucos passos para abraçar aquele corpo, já conseguia sentir aquele cheiro tão inconfundível. A sua pequena mão mal tocara a da mãe quando notou uma espécie de faísca. Elena não sabia o que era, mas sentiu algo estranho, inquietante. Diante dos seus olhos incrédulos, a mãe estava a desmaiar.

IV

Paula encontrava-se num lugar sem espaço nem tempo. Atrás de uma barreira intransponível, observava uma cena que lhe recordava um episódio da sua vida. Diante dos seus olhos via a filha, Elena, a brincar naquele recreio que parecia pertencer a outra época. De repente viu a menina ser atingida na cabeça por um baloiço de madeira. Sofreu intensamente, como se estivesse a viver aquele momento pela primeira vez. No entanto, com infinita alegria, viu que a menina se levantava sozinha. A mãe, ela própria, queria alcançá-la e pegou-a ao colo. Elena não chorava, estava bem. As duas estavam bem.

Paula compreendeu o que estava a ver e isso trouxe-lhe alívio. Tivera a oportunidade de viver uma experiência irrepetível. Agora sabia que, numa versão do universo, poderia desfrutar da presença da filha. Na sua linha temporal, infelizmente, fora atingida por aquele ataque cardíaco que acabara com a sua vida. No entanto, nalgumas das vidas possíveis, as duas continuariam juntas.

A visão daquela cena foi inesperadamente suficiente.

Deixou-se cair para trás, transformando-se em energia pura. Esta, de acordo com a entropia, continuará a alimentar a direção da seta do tempo do universo. Enquanto se transforma noutra essência, espera intensamente que a força que agora se liberta possa oferecer também um único segundo de tempo a mais ao seu doppelgänger.

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Stefano D'Alessio